20/09/2019 - 11:46

Vencedor da Mega Sena: “Vim trabalhar porque é o que eu sei fazer, a ficha não caiu”



A sala 23 da Câmara dos Deputados, ocupada pela liderança do Partido dos Trabalhadores (PT), viveu desde a noite da última quarta-feira um frisson que não se via desde que a legenda deixou o poder, com o impeachment de Dilma Rousseff. Desta vez, no entanto, o motivo dos holofotes não era nada político. Parte dos ocupantes da sala ficou milionária. Um bolão feito por funcionários recebeu um dos maiores prêmios já distribuídos pela Mega Sena brasileira: 120,08 milhões de reais. Eles se juntaram em um bolão, que contou com 49 cotas. Cada uma custou 10 reais e agora vale 2,45 milhões.

O clima, nesta quinta-feira, era de euforia. E ao contrário do prognóstico de muitos nas redes sociais, os ganhadores não desapareceram.“Vim trabalhar porque é o que eu sei fazer. Não consigo ficar parado. Em princípio, acho que não vou sair do trabalho. A ficha não caiu ainda”, disse um dos ganhadores, que adquiriu uma das cotas. Descendente de nordestinos que vive há mais de duas décadas em Brasília, ele diz que ainda não teve coragem de falar com seus familiares que vivem na Bahia. “Quero ajudar principalmente minha mãe, que é uma pessoa pobre. Fiquei com medo de ela ter um piripaque se eu contasse que sou um ganhador da Mega Sena”, completou.

Outro, um motorista que diz ter seis cotas (transformadas agora em quase 15 milhões de reais), pode ser um dos primeiros a desertar a equipe. Mas ainda não tem certeza se o fará nem quando. “Ainda não estou acreditando. Ninguém está pronto para ficar milionário de um dia pro outro”, afirmou ele em uma rápida conversa em que quis garantir que não estava sendo gravado. Além de pagar as contas, nenhum dos dois vencedores ouvidos pela reportagem sabia ao certo o que faria com a dinheirama que receberão.

“Tínhamos muitas pessoas humildes entre as ganhadoras. Todo mundo veio trabalhar hoje e disse que continuarão trabalhando. Mas tem gente que ainda está pensando no que vai fazer”, afirmou o deputado Paulo Pimenta, líder do partido na Câmara.

Entre os vencedores estavam copeiras, motoristas, seguranças, auxiliares administrativos, radialistas, analistas de redes sociais, secretárias, assessores técnicos, assessores de comissões e recepcionistas. Não está claro quantos dos 98 funcionários participaram do bolão. Alguns compraram mais de uma cota de 10 reais. Outros, a dividiram em até três pessoas. E vários ou não jogaram porque não estavam presentes —como um que estava em férias— ou porque não tinham dinheiro na hora que venderam as cotas. Nesse grupo estavam quatro copeiras com salários de pouco mais de 1.800 reais. Elas costumavam participar dos bolões da equipe, mas dessa vez ficaram de foram porque estavam sem dinheiro. Para agradá-las, os novos milionários do PT decidiram dividir o bolão com as quatro colegas.

Parte dos ganhadores já se apresentou à Caixa, o banco que organiza as loterias brasileiras, para requerer o prêmio. Ele leva até três dias úteis para ser entregue.

Na noite de quarta-feira, assim que a notícia começou a circular na Câmara, vários foram os memes na internet e as provocações na tribuna. Alguns diziam que, depois do prêmio, o PT deixaria de pedir a taxação de grandes fortunas. Outros questionavam, em tom de brincadeira, se o presidente Jair Bolsonaro (PSL) assinaria o cheque de 120 milhões de reais para os funcionários do principal partido da oposição ao seu Governo. Entre os teóricos da conspiração, houve quem dissesse que o PT teria fraudado o concurso. Algo que Pedro Guimarães, o presidente da Caixa, refutou dizendo que as loterias são 100% técnicas e matemáticas.

Mas as últimas 24 horas não foram só de comemoração e brincadeira. Houve os que ultrapassaram a linha do bom senso e do humor. Foi o caso do ministro da Educação, Abraham Weintraub. Em cinco postagens em sua conta no Twitter, ele chamou os funcionários petistas de corruptos. “Grupo do PT fica milionário sem roubar. Parabéns à tigrada. Agora já podem parar de defender o [ex-presidente] Lula”, dizia uma delas. Conforme o deputado Pimenta, o partido irá processar o ministro. “Essas postagens expressam o recalque, o sentimento negativo que ele e seu grupo espalham pela sociedade brasileira”, reclamou.

El País