09/04/2019 - 13:46

Jeová propõe e ALPB aprova criação da Medalha Padre Inácio de Sousa Rolim a ser dada a quem se destacar no cenário educacional



Que sertanejo não conhece a célebre frase: “Cajazeiras, cidade que ensinou a Paraíba a ler”, atribuída ao poeta, advogado e político, Alcides Carneiro? A citação tem justificativa histórica e faz menção ao legado do Padre Inácio de Sousa Rolim (o Padre Rolim), que realizou uma verdadeira “revolução” educacional no município, por volta de 1829, atraindo estudantes de várias cidades e de outros estados do Nordeste com seu Colégio. Reconhecido em vida por seu trabalho com condecorações imperiais, elogios e referências ao seu ensino, algumas de suas principais horarias, agora ad memoriam são, sem dúvida, aquelas feitas pelos seus conterrâneos. O deputado estadual Jeová Campos (PSB), que é professor universitário, entendendo que “o Poder Legislativo, vigilante em sua missão de representar a população do estado da Paraíba em todos os seus setores, dentre eles o histórico, educacional e cultural” protocolou o projeto de Resolução nº 16/2019 que institui a Medalha “Padre Inácio de Sousa Rolim – PADRE ROLIM” a ser concedida às personalidades que se destacarem no cenário educacional. A proposta já tramita na Casa.
“Outros personagens de vulto cultural ou de renome histórico já foram agraciados e perpetuados no bronze por esta Casa Legislativa, em Medalhas. O Padre Rolim, na sua obstinação educacional, arregimentou jovens para lhes abrigar sob o mesmo teto e lhes transmitir as primeiras letras, marco inicial do mais importante educandário do estado da Paraíba. Por isto, este Parlamento faz justiça quando reconhece a importância de grande homem para o desenvolvimento da Paraíba”, defende Jeová Campos na justificativa de seu Projeto.
Seja o Anchieta do Norte, como foi cognominado pelo Imperador Dom Pedro II, o Educador dos Sertões, o Padre-Mestre Rolim, ou simplesmente Inacim, o fato é que a importância dessa personalidade para a Paraíba é inegável, ao ponto de o Padre Rolim ser considerado não só um “patrimônio de Cajazeiras”, mas de todos os paraibanos. Foram inúmeros os alunos que passaram pela escola do Padre Rolim entre 1829 e 1877. Alguns ilustres, como o Padre Cícero Romão Batista; Joaquim Arcoverde de Albuquerque Cavalcanti (cardeal Arcoverde); José Peregrino de Araújo (Governador da Paraíba); Leonardo Salgado Guarita (Promotor e desembargador do tribunal de Apelações do Rio Grande do Sul); desembargador José Manuel de Freitas, Juiz de Direito, presidente das Províncias do Piauí, Maranhão e Pernambuco); Padre José Tomás de Albuquerque, dentre outros tantos que se projetaram nos cenários político, cultural e social do país.
Assim, o deputado Jeová Campos, não apenas como cajazeirense que é, mas como paraibano que encampa diversas lutas em prol do desenvolvimento do estado,  defende que a ALPB tem o papel de referendar essa história e imprimir grandiosa obra de Rolim ad memoriam através da concessão de honrarias em reconhecimento aos trabalhos realizados nas áreas educacional e também religiosa. “Todos sabem que não sou afeito a honrarias e quando o faço tenho justificativas para tal iniciativa, como neste caso, que é até uma forma de gratidão a tão ilustre e iluminado ser humano, um educador na sua essência”, destaca Jeová.
           O Projeto protocolado na Assembleia Legislativa da Paraíba (ALPB), no último dia 03, ainda traz a informação de que a horaria será concedida a cinco personalidades, anualmente, em sessão Solene no parlamento. O Projeto ainda será apreciado em plenário. Vale salientar que o Padre Mestre Rolim recebeu inúmeros convites para ir para outros estados, a exemplo de Pernambuco, como o grande mentor do processo educacional e desenvolvimentista que realizou, mas, ele renunciou a todas as honrarias para dedicar-se ao engrandecimento de sua terra natal. “Fico extremamente feliz em dar minha contribuição para reverenciar a memória deste grande educador e visionário, que enxergou na Educação o caminho para o crescimento das pessoas. Eu próprio, sou um exemplo de que a Educação muda o destino das pessoas”, reforça Jeová, na expectativa de que os deputados entendam a importância de sua iniciativa e aprovem a concessão da medalha.
            Biografia de Inacim
Inácio de Sousa Rolim nasceu em 22 de agosto de 1800, no sítio Serrote, extremo oeste da capitania da Paraíba. Seus pais eram Ana Francisca de Albuquerque, e Vital de Sousa Rolim. Trazia nas veias o sangue de Jerônimo de Albuquerque (fidalgo português colonizador de Pernambuco) e do médico francês Isidoro Rolim (iluminista de Marselha). Inácio tinha poucos dias de vida quando seus pais passaram a morar na terra que receberam como dote de casamento e onde se formaria a fazenda das Cajazeiras.
Sua infância foi ao lado dos irmãos na fazenda. Mas, muito cedo já demostrou interesse pelas Letras. Aos 16 anos já falava fluentemente o Francês e estudava o grego e o Latim, o que levou os pais de Rolim a encaminharem o filho à cidade de Crato (CE) para preparar-se para o ingresso no Seminário de Olinda, onde ingressou em 1822. Durante o curso foi censor e bedel, sendo integrado ao corpo docente do Seminário como professor de Grego. Posteriormente, devido ao seu trabalho no Seminário, foi convidado pelo Governador de Pernambuco a fundar a cadeira de Grego no Ginásio Pernambucano. Lá, ele também editou sua Gramática Grega, impressa em Paris em 1856.
Padre Rolim era poliglota. Falava fluentemente dez línguas: francês, inglês, alemão, italiano, espanhol, latim, sânscrito, hebraico, tupi-guarani e grego. Em 30 de julho de 1825 recebeu a primeira tonsura e, no dia 31 de julho, as ordens menores, em Recife. Em agosto do mesmo ano foi ordenado subdiácono e no dia 2 de outubro de 1825, foi sagrado Presbítero. Não pôde voltar de imediato à sua terra natal. Continuou por um tempo em Olinda como professor do seminário, algo que exercia paralelamente ao cargo de Reitor.
Mas, em 1829, o Padre Rolim voltava à pequena povoação que se iniciava na fazenda dos seus pais. Ele fundou a escolinha de Serraria, uma pequena casa onde se serrava madeira, mas que passou a abrigar poucos estudantes. Depois, dado ao alto nível do ensino que habilitava seus alunos a ingressarem no curso superior, a procura pela sua escola foi crescendo volumosamente ao ponto de, em 1836, quando Rolim percebeu a repercussão de sua obra, dispôs-se a transferir a escola para um prédio de alvenaria.
O prédio, assim como o número de alunos, só ia aumentando. O historiador Celso Mariz disse: “A sua casa de ensino se fazia à proporção que chegavam os novos discípulos. Cada aluno esperava por seu teto, embora já encontrasse o seu livro”, (Através do sertão, 1910). Nos anos seguintes, a atividade do Padre Rolim já repercutia em todo Sertão e nas províncias próximas: Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte e Pernambuco. Assim, ele transformou a escola em colégio de instrução secundária. E, em torno do colégio foi crescendo o povoado. Em menos de 50 anos, passou de simples povoado à condição de Vila, sede de comarca e cidade, sendo, Rolim, o fundador da cidade de Cajazeiras.
O reconhecimento oficial aos seus méritos aconteceu no dia 14 de março de 1860, por Decreto, quando Dom Pedro II o condecorou com as insígnias da Ordem de Cristo, no Grau de Comendador. Pouco depois, foi mais uma vez condecorado pelo imperador que o agraciou com a Ordem da Rosa, pelos serviços prestados à causa da Educação. Foi patrono da cadeira de número 26 da Academia Paraíba de Letras. Uma iniciativa do Cônego Matias Freire, fundador da Academia. Em sua memória, tem-se a consagração de sua data natalícia, 22 de agosto, como “o dia da cidade”, um pleito da Câmara Municipal de Cajazeiras. Fez da história natural sua predileção. Publicou, já aos 82 anos, o Tratado de História Natural. Ainda escreveu uma gramática de Língua Portuguesa, um tratado de Filosofia e outro de Retórica.
Em 1877, o colégio fechou. O Padre Rolim não conseguia mais mantê-lo como antes. Ele faleceu no dia 16 de setembro de 1899, vitimado por uma astenia cardíaca senil. Ao longo de seus 99 anos, conta-se que Rolim não dormia em rede ou cama, preferindo utilizar como leito, duas caixas de madeira. Ele abstinha-se de comer carne, alimentando-se de leite, frutas e biscoito. Seu corpo foi venerado por cerca de 40 horas. Conta-se que seu corpo não exalava mau cheiro. A população de Cajazeiras já lhe atribuía virtude de santidade pela humildade de seus hábitos. Propagou-se rapidamente que ele morrera em “odor de santidade” e, assim passou a ser tratado pelos conterrâneos.