25/10/2019 - 12:20

Acusações contra filhos e assessores de Bolsonaro dão combustível à CPI das Fake News, diz presidente da comissão



A denúncia da ex-líder do governo no Congresso Joice Hasselmann (PSL-SP) de que uma milícia digital atua nas redes sociais para atacar desafetos do presidente Jair Bolsonaro dá munição à CPI mista das Fake News, segundo o presidente da comissão, senador Ângelo Coronel (PSD-BA). Joice já está convidada a comparecer ao colegiado e promete fazer revelações comprometedoras contra Carlos, Eduardo e Flávio Bolsonaro, filhos do presidente Jair Bolsonaro, e assessores.
“Não deixa de criar uma expectativa a comprovação dessas denúncias feitas pela Joice, pelo Alexandre Frota e pelo Delegado Waldir, um combustível a mais para se investigar. Principalmente porque são denúncias feitas por quem militou ao lado do presidente”, disse Coronel ao Congresso em Foco.
Joice acusa os irmãos Bolsonaro de chefiarem uma rede 1,5 mil perfis falsos nas redes sociais para disseminar notícias inverídicas e difamar inclusive aliados do governo, como ela. Assim como a deputada, Alexandre Frota (PSDB-SP), que foi expulso do PSL, e Delegado Waldir (GO), que perdeu a liderança do PSL e ameaçou “implodir” o presidente, também serão convidados pela comissão. Nesse caso, diferentemente de uma convocação, eles não são obrigados a comparecer.
“Quem imaginar que a CPI vai ficar só na eleição de 2018 está muito enganado. Também vamos nos debruçar sobre a proteção de dados e o combate ao cyberbullying. São três frentes. O intuito final é deixar um legado para a proteção contra perfis falsos e que as redes sociais possam retirar do ar imediatamente material que atingir diretamente a honra de alguém”, declarou. “Não é censura. É tirar do ar pessoas que se travestem de perfis falsos para depreciar outras pessoas e instituições e até para modificar o resultado de uma eleição”, acrescentou.
"Gabinete do ódio"
A CPI ainda vai analisar pedido de convocação de Carlos Bolsonaro (PSC), o vereador carioca é responsável pelas redes sociais do pai. Em uma sessão tumultuada realizada nessa quarta-feira (24), a comissão decidiu convocar auxiliares do presidente, como o secretário de Comunicação, Fabio Wajngarten, e o assessor especial da Presidência Felipe Martins, além de integrantes do chamado “gabinete do ódio”.
O termo é usado internamente no governo para se referir aos assessores do Planalto Tércio Arnaud Tomaz, José Matheus Sales Gomes e Mateus Matos Diniz, ligados a Carlos Bolsonaro. Entre as funções que o grupo exerce no governo está a atualização das redes sociais do Palácio do Planalto.
"Estou à disposição de qualquer comissão que me convide ou convoque. Eu jamais me furtaria a falar com meus colegas deputados e senadores. Só foge de comissão quem tem medo de falar a verdade. Não é o meu caso", afirmou Joice Hasselmann ao Congresso em Foco.
Ela disse que pode falar dos ataques que têm sofrido nas redes sociais nos últimos dias, desde que entrou em conflito com a família Bolsonaro. Porém, destacou que avaliar se essa "milícia digital" tem relação com a família Bolsonaro ou com a campanha eleitoral do ano passado será uma tarefa da CPI das Fake News.
"Eu tenho como contribuir em relação aos ataques que estão acontecendo contra mim. Não vou me deixar ser usada para dizer que estou contra a família A, B ou C. Não me interessa o sobrenome. Mas se alguém fizer alguma coisa errada, vai ter que obviamente se justificar dentro dos meios legais e morais e dar suas explicações", ressaltou Joice, que, por sua vez, voltou a confirmar a existência da chamada "milícia digital".
O ex-ministro da Secretaria de Governo Santos Cruz é outro ex-integrante do governo que pode comprometer os filhos de Bolsonaro e assessores. Em entrevista publicada na segunda-feira, o ex-ministro disse ao Congresso em Foco que pretendia ir à CPI. O convite foi aprovado na quarta. Ele virou alvo da militância bolsonarista desde que defendeu a adoção de critérios técnicos para distribuição de recursos públicos entre veículos de comunicação. Atacado nas redes, acabou demitido do cargo pelo presidente Jair Bolsonaro em junho.
“Uma milícia digital, uma gangue de rua que se transfere para dentro da internet. Não me impressiono com isso, aquilo ali não me afeta em nada, já tive muito tiroteio real na vida, não vai ser tiroteio de internet que vai me fazer ficar preocupado”, disse o general da reserva em entrevista ao site.
Caldeirão
Para Ângelo Coronel, a CPI tende a ganhar mais visibilidade com o encerramento da tramitação da reforma da Previdência no Senado, aprovada em segundo turno na última quarta-feira (23).
“Não temos que nos preocupar só com o passado. Temos que nos ater também ao presente e ao futuro. Temos colegas parlamentares que parecem preocupados só com o passado. É importante investigarmos o presente para proteger o futuro”, defende. “A CPI é um caldeirão. A cada momento o fogo está mais favorável a um lado ou outro, as tensões sobem e descem”, observa.
Ângelo Coronel pretende começar as oitivas na comissão na próxima semana. “A partir do momento que fica a discussão do lado A e do lado B, não chegamos a nada. Nunca vi tanta chuva de requerimento. Tem 160 aprovados e mais de 60 para aprovar. Vamos virar CPI só de requerimento”, critica.
Na próxima terça a CPI mista vai discutir o tema cyberbullying e suicídio. Serão ouvidos o diretor da Associação Brasileira de Estudos e Prevenção ao Suicídio (Abeps), Carlos Felipe de Almeida, o coordenador do Laboratório de Inteligência Cibernética do Ministério da Justiça, Delegado Alessandro Barreto, e o representante da Safernet, organização que monitora a internet e trabalha na prevenção e combate ao cyberbullying, Thiago Tavares.
Congresso em Foco